quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Dor


As nuvens estavam gordas e escuras. Andavam lentas pelo céu, onde a tensão inexplicável parecia fazer o ar crepitar.

Um flash de relâmpago iluminou o mundo, mas foi um som de montanhas desabando que rompeu a calma que já estava por um fio.

Respondendo ao trovão, as nuvens se romperam e fizeram descer uma água grossa e ruidosa que rolou pelas ruas e molhou as casas e escureceu ainda mais o dia.

Aquele choro rasgado durou muitas horas e, quando por fim se desfez numa chuvinha rala e simpática, fez surgir um mundo novo, limpo, de alma lavada, sem pecados nem crimes.


(Publicado originalmente em 21.03.2005, em konohito.blogger.com.br)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sombra preta


O ciúme entrou como um miasma pelas frestas da porta e invadiu tua sala, teu quarto, teus pulmões.

Seu odor acre ardeu dentro de ti e trouxe um gosto ruim à tua boca.

Mas o ciúme não te fez injetados os olhos, não afiou as tuas unhas nem reclamou o sangue que as traições cobram como tributo.

Pois o ciúme não se fez em ira.

O vinho não virou vinagre mas o ciúme, como um santo ao contrário, o transformou em água e foi como se um ar novo invadisse a casa e arejasse a tua alma e te deixasse em paz.


(Publicado originalmente em 08.01.2005, em konohito.blogger.com.br)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Interno

"Durante um ano da lua, fui declarado invisível."
- A Loteria de Babilônia, Jorge Luís Borges

Sou um espectro, vagando entre mundos aos quais não pertenço por inteiro.

Passo entre os vivos arrastando minhas correntes. Eles me vêem, me ouvem, mas não podem me tocar.

Sou uma alma apenada.

Cumpro meu tempo em regime fechado em meio à multidão.


(Publicado originalmente em 18.03.2006, em konohito.blogger.com.br)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ressaca

Acordou com aquela dor de cabeça. Ressaca da porra.

Virou-se pro lado e deu de cara com aquela cara branca de olhos fechados. De início -olhos semicerrados-, achou que estivesse imaginando coisas mas, de olhos bem abertos, o rosto daquela mulher branca continuava deitado ao seu lado.

Caralho. A ressaca era maior do que pensava.

Virou-se de volta, olhou o rádio-relógio. Dez horas. O trabalho já era. Nem pensar em chegar aquela hora com os olhos vermelhos e a cara de morto-vivo que devia estar.

Tentou lembrar com terminara a noite, mas aquela dorzinha nojenta na nuca não ajudava.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A Menina do domingo


Havia magia naquela manhã de domingo -ou talvez fossem apenas os metabólitos do álcool da noite anterior que ainda circulavam no meu sangue e teriam aguçado minha sensibilidade- , mas o fato é que quando abri a janela do apartamento, do outro lado da rua eu avistei a menina mais linda do mundo.

Não vou dizer que naqueles poucos instantes em que lhe invadi a privacidade, algo envergonhado, possa ter analisado cuidadosamente todos os detalhes de sua anatomia. Tampouco quero fazer crer que a comparei em algum maravilhoso banco de beldades, perdido entre meus neurônios, com todas as mulheres lindas que já passaram diante de meus olhos. Mas a certeza que tive de que ela era a mais linda do mundo foi tão instantânea e tão certa que não pode haver dúvida: eu realmente estava olhando para a menina mais linda do mundo.