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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Irmão lobo



E de dentro do lobo, o Homem tirou o cão. E do cão fez muitas raças.

E fez as raças grandes e as pequenas, as mansas e as ferozes. Pois do lobo o Homem tirou o galgo e o mastim, o pastor belga e o buldogue, o pinscher e o terrier. E tirou o beagle, o terranova, o dinamarquês e o de Pequim. Tirou pastores e cães de guarda, cães de fila e de companhia, apontadores, boieiros e sabujos.

E tirou o akita e o daschshund, o poodle e o rottweiller; o pequeno chihuahua e o elkhound; o cocker spaniel, o cão maltês e o grande São-Bernardo. Tirou o boxer e o ovelheiro gaúcho. Tirou o collie e o landseer, o braco alemão e o cão de água português.

E todos eles moravam no lobo. E todos eles o Homem tirou de lá.

E nunca mais esteve só.


(Publicado originalmente em 26.06.2006, em konohito.blogger.com.br)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Dor


As nuvens estavam gordas e escuras. Andavam lentas pelo céu, onde a tensão inexplicável parecia fazer o ar crepitar.

Um flash de relâmpago iluminou o mundo, mas foi um som de montanhas desabando que rompeu a calma que já estava por um fio.

Respondendo ao trovão, as nuvens se romperam e fizeram descer uma água grossa e ruidosa que rolou pelas ruas e molhou as casas e escureceu ainda mais o dia.

Aquele choro rasgado durou muitas horas e, quando por fim se desfez numa chuvinha rala e simpática, fez surgir um mundo novo, limpo, de alma lavada, sem pecados nem crimes.


(Publicado originalmente em 21.03.2005, em konohito.blogger.com.br)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sombra preta


O ciúme entrou como um miasma pelas frestas da porta e invadiu tua sala, teu quarto, teus pulmões.

Seu odor acre ardeu dentro de ti e trouxe um gosto ruim à tua boca.

Mas o ciúme não te fez injetados os olhos, não afiou as tuas unhas nem reclamou o sangue que as traições cobram como tributo.

Pois o ciúme não se fez em ira.

O vinho não virou vinagre mas o ciúme, como um santo ao contrário, o transformou em água e foi como se um ar novo invadisse a casa e arejasse a tua alma e te deixasse em paz.


(Publicado originalmente em 08.01.2005, em konohito.blogger.com.br)