E depois, o silêncio.
Sem explicação, sem aviso prévio, sem uma queixa, você deixou de falar comigo. Sem nenhum motivo – pelo menos para mim.
Primeiro, veio o susto. A certeza que era um engano: É paranoia. Hoje não, mas amanhã ela fala. Esperança. Sempre a última a morrer.
Depois, a esperança tornou-se ansiedade. E por fim angústia. Um dia, dois, três. Uma semana inteira sem uma palavra sua, uma mensagem, um emoticon.
A comida perdeu o sabor. Da bebida, só o efeito do álcool; a demora para dormir e o despertar na madrugada, fazendo a mim as mesmas perguntas que já lhe fiz. Por quê? O que eu fiz? Quando? De você, só o silêncio.
Os livros amigos à cabeceira da cama me ajudando a distrair a angústia e adormecer por mais umas horas, enquanto o sol nasce lá fora. Porque aqui dentro seu silêncio e a escuridão se confundem.
Passo os dias como um cachorro esperando o dono que não vem mais. De orelha em pé, cada toque, cada mensagem que chega pode ser sua, me dizendo: Deixe de paranoia! Mas, como aquele cachorro, sempre volto a me enrolar no meu canto. Não era o dono.
E é assim que temos vivido esses dias. Eu e essa esperança teimosa, que insiste em não morrer.
Sempre aguardando o próximo toque, a próxima mensagem que quebre o seu silêncio. Talvez até sua voz censurando o meu drama:
– Deixe de paranoia! Ai ai ai...
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O Gato
Ela disse pra ele naquela noite:
- Não fique assim... Você vai encontrar alguém...
Acredite em mim: você é um gatinho...
- Sim. Um gato feio...
(Publicado originalmente em 18.11.2003, em konohito.blogger.com.br)
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Irmão lobo
E de dentro do lobo, o Homem tirou o cão. E do cão fez muitas raças.
E fez as raças grandes e as pequenas, as mansas e as ferozes. Pois do lobo o Homem tirou o galgo e o mastim, o pastor belga e o buldogue, o pinscher e o terrier. E tirou o beagle, o terranova, o dinamarquês e o de Pequim. Tirou pastores e cães de guarda, cães de fila e de companhia, apontadores, boieiros e sabujos.
E tirou o akita e o daschshund, o poodle e o rottweiller; o pequeno chihuahua e o elkhound; o cocker spaniel, o cão maltês e o grande São-Bernardo. Tirou o boxer e o ovelheiro gaúcho. Tirou o collie e o landseer, o braco alemão e o cão de água português.
E todos eles moravam no lobo. E todos eles o Homem tirou de lá.
E nunca mais esteve só.
(Publicado originalmente em 26.06.2006, em konohito.blogger.com.br)
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Interno
"Durante um ano da lua, fui declarado invisível."- A Loteria de Babilônia, Jorge Luís Borges
Sou um espectro, vagando entre mundos aos quais não pertenço por inteiro.
Passo entre os vivos arrastando minhas correntes. Eles me vêem, me ouvem, mas não podem me tocar.
Sou uma alma apenada.
Cumpro meu tempo em regime fechado em meio à multidão.
(Publicado originalmente em 18.03.2006, em konohito.blogger.com.br)
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Sirenas
Insano, persigo sonhos impossíveis - cego pelo desejo, iludido pela vontade.
Em minha luta perdida contra o que passou, só tenho à frente a frustração do que nunca poderia ter sido. A realidade -irmã do tempo- não espera por ninguém. Enquanto isso, seus frutos apodrecem nos galhos esperando por mim.
Mais uma vez, vou olhar pra trás e me perguntar por que não pus cera nos ouvidos. Por que não me amarrei no mastro. Por que corri atrás de fantasmas.
Mas não terei as respostas, pois certamente novos cantos me afastarão da minha rota, e novamente estarei cumprindo meu destino e mergulhando naquele escuro vazio onde elas cantam. Em busca de nada.
(Publicado originalmente em 10.10.2004, em konohito.blogger.com.br)
Em minha luta perdida contra o que passou, só tenho à frente a frustração do que nunca poderia ter sido. A realidade -irmã do tempo- não espera por ninguém. Enquanto isso, seus frutos apodrecem nos galhos esperando por mim.
Mais uma vez, vou olhar pra trás e me perguntar por que não pus cera nos ouvidos. Por que não me amarrei no mastro. Por que corri atrás de fantasmas.
Mas não terei as respostas, pois certamente novos cantos me afastarão da minha rota, e novamente estarei cumprindo meu destino e mergulhando naquele escuro vazio onde elas cantam. Em busca de nada.
(Publicado originalmente em 10.10.2004, em konohito.blogger.com.br)
sábado, 11 de dezembro de 2010
Mais de mim
Houve um tempo em que dei pra beber sozinho.
Nas noites de festa, ficava em casa, bebendo uísque com gelo e remoendo a minha solidão.
Ouvia músicas que me deixavam mais triste. A mesma música uma e duas e várias vezes, sem parar, enquanto lamentava minha falta de sorte com as mulheres, minha falta de sorte com o trabalho, minha incapacidade de simplesmente ter um rumo na vida.
Como veio, passou. E hoje não sei se foi por força minha ou se somente fui levado pela mão por um destino que já me arrastava pelos cantos há muito tempo.
Tendo a crer que fui salvo pelo amor.
Mais um amor irrealizado (como todos os outros), mas um amor que me tirou de um poço de autopiedade e me mostrou que os caminhos existem para serem trilhados. Mesmo quando vão dar em lugar nenhum.
Nas noites de festa, ficava em casa, bebendo uísque com gelo e remoendo a minha solidão.
Ouvia músicas que me deixavam mais triste. A mesma música uma e duas e várias vezes, sem parar, enquanto lamentava minha falta de sorte com as mulheres, minha falta de sorte com o trabalho, minha incapacidade de simplesmente ter um rumo na vida.
Como veio, passou. E hoje não sei se foi por força minha ou se somente fui levado pela mão por um destino que já me arrastava pelos cantos há muito tempo.
Tendo a crer que fui salvo pelo amor.
Mais um amor irrealizado (como todos os outros), mas um amor que me tirou de um poço de autopiedade e me mostrou que os caminhos existem para serem trilhados. Mesmo quando vão dar em lugar nenhum.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Obliquidades
Infância.
Na sala quente,
a professorinha recitava o seu monótono português:
Me-mim-comigo,
Te-ti-contigo,
Se-si-consigo.
Eu me perguntava
se era bonita essa minha Téti
e morria de pena da pobre Ceci.
Tão sozinha.
Na sala quente,
a professorinha recitava o seu monótono português:
Me-mim-comigo,
Te-ti-contigo,
Se-si-consigo.
Eu me perguntava
se era bonita essa minha Téti
e morria de pena da pobre Ceci.
Tão sozinha.
domingo, 19 de setembro de 2010
Prece
Ontem você me faltou
E a sua ausência me deixou vão
Vazio de você e de mim
Carente de seu cheiro
Órfão de sua voz
Abraçado a essa tênue esperança
De que, um dia,
O que nunca poderia ser
Seja
E a sua ausência me deixou vão
Vazio de você e de mim
Carente de seu cheiro
Órfão de sua voz
Abraçado a essa tênue esperança
De que, um dia,
O que nunca poderia ser
Seja
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