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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Certezas

Quando ela achou melhor dar um tempo, ele já sabia que ela iria voltar para o outro.

Não que a paixão tivesse acabado, não. O tempo era justamente para amenizar a dor. O amor, é que nunca tinha havido amor.

Ele não fez que nem o outro. Não chorou, não lembrou dos dias bons, não mandou cartas.

Um dia disse a ela Você nunca me quis de verdade. Você apenas me usou para ter certeza de que era dele que você gostava. Ela não respondeu, pensativa.

Prometeu que ele seria sempre um amigo. Que era especial. Que não sofresse com a separação necessária.

Não se viram por quinze anos. Ela casou, teve filho.

Um dia se encontraram num bar: Ei, cadê você? Sumiu... Ooi, tudo bom? Tudo bom.

E isso foi tudo.


(Publicado originalmente em  28.12.2008, em konohito.blogger.com.br)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Interno

"Durante um ano da lua, fui declarado invisível."
- A Loteria de Babilônia, Jorge Luís Borges

Sou um espectro, vagando entre mundos aos quais não pertenço por inteiro.

Passo entre os vivos arrastando minhas correntes. Eles me vêem, me ouvem, mas não podem me tocar.

Sou uma alma apenada.

Cumpro meu tempo em regime fechado em meio à multidão.


(Publicado originalmente em 18.03.2006, em konohito.blogger.com.br)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sirenas

Insano, persigo sonhos impossíveis - cego pelo desejo, iludido pela vontade.

Em minha luta perdida contra o que passou, só tenho à frente a frustração do que nunca poderia ter sido. A realidade -irmã do tempo- não espera por ninguém. Enquanto isso, seus frutos apodrecem nos galhos esperando por mim.

Mais uma vez, vou olhar pra trás e me perguntar por que não pus cera nos ouvidos. Por que não me amarrei no mastro. Por que corri atrás de fantasmas.

Mas não terei as respostas, pois certamente novos cantos me afastarão da minha rota, e novamente estarei cumprindo meu destino e mergulhando naquele escuro vazio onde elas cantam. Em busca de nada.


(Publicado originalmente em 10.10.2004, em konohito.blogger.com.br)

Dead end

Ela tentava explicar porque eles não dariam certo.

Ele, cabeça baixa, desenhava caminhos nas costas da mão dela.

Ela mostrava que ele entendera errado, que seriam sempre amigos (sempre), que gostava muito dele...

Ele percebia que a cada palavra ela dava mais uma volta, se distanciava, fugia do que precisava ser dito.

No fundo, ela tentava não machucá-lo, em suas voltas e voltas e voltas, mas desde o início ele sabia que os caminhos que desenhava nas costas da mão dela eram becos sem saída, partidas sem chegada, rios sem mar. Estavam perdidos para sempre.

Como ele.


(Publicado originalmente em 16.09.2006, em konohito.blogger.com.br)