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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Homem duplicado


Ele nem lembrava mais há quanto tempo usava aquele bigode. Nem sequer sabia por que o deixara crescer. Talvez para fazer o visual machão da época. Talvez para esconder alguma cicatriz.

Como era seu rosto sem bigode? Sempre lembrava dele assim, por trás daqueles pelos escuros. Não tinha muitas fotos. E em todas tinha bigodes.

Os amigos brincavam com ele. Falavam que bigode era coisa de gay; no máximo, coisa de metrossexual. Mas ele não ligava. Por que não arriscava tirar o bigode? Ficaria mais jovem, possivelmente. Ficaria mais clean.

No fundo ele também se perguntava por que não arriscava. Bigode cresce bem rápido. Se não gostasse do que visse, era só deixar crescer de novo.

Um dia a curiosidade foi maior do que o medo. Não se preocupou com a cicatriz, com a imagem, com o que iriam pensar. Tirou o bigode. Queria ver quem estava ali detrás. Queria ver quem era esse outro que se escondia por trás daquele antiquado ornamento facial.

E veio o choque. Por trás do bigode estava ele! Mas um outro ele. O ele que ele queria esquecer.

Não soube suportar o choque de se ver no espelho, o duplo de outra pessoa que era, mas ao mesmo tempo não era, ele.

Dois dias depois cometeu suicídio.

Isso foi o que todos pensaram. No fim, só ele mesmo sabia que a verdade era outra: ele matara o intruso.


(Publicado originalmente em 19.01.2005, em konohito.blogger.com.br)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Certezas

Quando ela achou melhor dar um tempo, ele já sabia que ela iria voltar para o outro.

Não que a paixão tivesse acabado, não. O tempo era justamente para amenizar a dor. O amor, é que nunca tinha havido amor.

Ele não fez que nem o outro. Não chorou, não lembrou dos dias bons, não mandou cartas.

Um dia disse a ela Você nunca me quis de verdade. Você apenas me usou para ter certeza de que era dele que você gostava. Ela não respondeu, pensativa.

Prometeu que ele seria sempre um amigo. Que era especial. Que não sofresse com a separação necessária.

Não se viram por quinze anos. Ela casou, teve filho.

Um dia se encontraram num bar: Ei, cadê você? Sumiu... Ooi, tudo bom? Tudo bom.

E isso foi tudo.


(Publicado originalmente em  28.12.2008, em konohito.blogger.com.br)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Dead end

Ela tentava explicar porque eles não dariam certo.

Ele, cabeça baixa, desenhava caminhos nas costas da mão dela.

Ela mostrava que ele entendera errado, que seriam sempre amigos (sempre), que gostava muito dele...

Ele percebia que a cada palavra ela dava mais uma volta, se distanciava, fugia do que precisava ser dito.

No fundo, ela tentava não machucá-lo, em suas voltas e voltas e voltas, mas desde o início ele sabia que os caminhos que desenhava nas costas da mão dela eram becos sem saída, partidas sem chegada, rios sem mar. Estavam perdidos para sempre.

Como ele.


(Publicado originalmente em 16.09.2006, em konohito.blogger.com.br)