sexta-feira, 24 de junho de 2011

A terceira escravidão

Primeiro eles privatizaram o chão. Pegaram a terra e as árvores e as águas e disseram que eram deles. E a gente passou a comprar o que antes era Natureza: as frutas, a água, a carne. E o próprio chão. Quem não tinha terra não tinha nada; não era gente. A gente virou servo. Gente virou propriedade, era só parte do chão que eles possuíam. Até a inocência de nossas filhas era deles.

Depois eles vieram com uma tal de Indústria. Máquinas, vapor e trabalho. E a gente virou operário. Expulsaram a gente da terra; incharam as cidades; nos trancaram nas fábricas. Gente virou mão-de-obra. Uma mercadoria a mais nas prateleiras do mercado.

Agora eles chegam e nos surpreendem outra vez. Estão abolindo a propriedade privada das coisas materiais. A gente não tem mais telefone; não tem mais computador; não tem mais carro. Eles estão privatizando o "uso". Gente virou consumidor. Para viver só é preciso pagar uma taxa mensal. A assinatura da tevê; o leasing do carro; a mensalidade do telefone; o plano de saúde; o seguro de vida.

Primeiro perdemos a terra para eles. Depois o nosso trabalho. Agora, estamos perdendo nossa existência. Um dia, farão comodato de nossa alma.


(Este texto foi publicado originalmente, com algumas diferenças, em 2002, na coluna Deu na Lata do site www.sanatoriodaimprensa.com.br, sob o pseudônimo de Solinovsky).

2 comentários:

Samis disse...

já tem gente que vende a alma pra depois que morrer...

ótimo texto.

Vou seguir aqui,


Samira

Damião disse...

Oi, Solino. A sociedade contemporânea é mais voltada para o serviço do que para a indústria, por isso, não compramos tanto, mas pagamos por serviços o tempo todo. Quanto a posse do território, é bom lembrar que muitas espécies também são territoriais, e se alguém "invadir" o espaço de outro terá problemas.
Até logo,
Damião